Mairus Webber

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2007
Uma semana no Copa d’Or
Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007 - 19:39
Mairus Webber - 3,980 visitas

Este post se destina a descrever a minha, ainda que contra a minha vontade, inesquecível experiência de uma semana (de 28/10 a 3/11/2007) internado no Copa d’Or após um bobo acidente que por pouco não me marcou para o resto da vida.
O que me motivou a escrever isso foi a surpresa, o choque que eu tive ao me deparar com um pós operatório, situação que, não sei se foi apenas por causa das características do meu caso, mas superou quaisquer expectativas que eu tinha no que diz respeito a sofrimento, desconforto… perrengue, enfim.
O post é muito comprido, e eu nem me considero possuidor do skill necessário para escrever algo tão grande, mas vou escrever assim mesmo, pelo valor contido na experiência descrita nessas linhas.
Impossível passar pelo que eu passei e não tirar conclusões, não passar a ver as coisas de outra forma.
Não, não virei bíblia, podem ficar tranqüilos.

Dia #1: O mergulho e a chegada ao hospital

A piscina

Meu traumatismo craniano

Domingão de sol na mansão, piscininha, feijoada no fogo, cervejinha gelada, e Mairus se prepara para mais um refrescante mergulho na piscina do solar.
Tirei minha camisa florida, deixei na mesa minha garrafinha de Brahma Extra, peguei embalo e corri para mais um pulo como tantos que já dei na amebóide piscina da casa do meu pai.
Corre, corre, corre, e, “Hop!” uma breve flutuada no ar e um suave e refrescante mergulho nas águas cristalinas.
Estou embaixo d’água, agora já nos procedimentos para a volta à superfície, quando senti um forte impacto indolor bem no topo do crânio, que me deixou imóvel no fundo da piscina de uns 2,5m de profundidade, com o corpo inteiro formigando e incapacitado de realizar um único movimento sequer.
Me lembrei na hora do livro.
Era exatamente idêntica a descrição do mergulho do Marcelo Rubens Paiva, que o deixou tetraplégico.
Achei que não conseguiria sair do fundo da piscina, mas apesar de ficar por severos segundos embaixo d’água, não cheguei a ter falta de ar, apenas a preocupação crescente em não conseguir subir para superfície.
Finalmente consegui voltar a me mexer.
Tratei de nadar para cima e me segurei na borda, para então pedir ajuda para quem estivesse mais próximo.
Mauro rapidamente percebeu a gravidade da situação ao notar que havia sangue brotando da minha cabeça.
Me levou até a escada da piscina, por onde eu subi, e em meio a muita dor, me recusei a ser levado para dentro de casa, preferindo me deitar ali mesmo ao lado da piscina, na sombra mais próxima.
Me deitei e para a minha sorte, médicos não faltavam à minha volta, que me tranqüilizaram, dizendo que como eu conseguia mover todos os membros do meu corpo, que o pior não havia acontecido… isto é, nenhuma das piores alternativas, que iam desde a minha morte até a minha paralisia.
Logo conseguiram colocar um colchãozinho entre minha carcaça e o chão de pedra, Mauro me deu um placebo qualquer dizendo que era Tylex, Monica me trouxe uma pomada veterinária quentíssima, que faz calminex parecer margarina, outra garrafa de cerveja para minha hidratação e logo veio meu pai com um Tylex de verdade, o remédio a quem serei eternamente grato pelo alívio que deu na horrorosa dor que eu sentia após a cataclísmica retirada de um ciso incluso em 1999, que também merece um post aqui um dia desses… uma história bem mais divertida do que essa.
Enfim, tomei o Tylex, mais uns quinze minutos, consegui me levantar e… para o carro, Copa d’Or.
Chegando lá na emergência, conheci o médico que me trataria, o Dr. Jorge, fiz alguns testes com martelinho, depois me botaram numa maca de plástico dura pra cacete, com buracos, um colar cervical, e mais uma cabaninha de espuma em volta da minha cabeça para eu esperar a minha vez na tomografia.
Fiquei estacionado por não sei quanto tempo em uma baia, olhando o teto, os furinhos do forro, o acabamento da luminária, as sujeirinhas da lâmpada fluorescente, enfim, tudo o que havia em meu limitado campo de visão foi devidamente decorado pelo meu entediado e dolorido cerebelo, de modo que posso hoje desenhar com detalhes aquelas lâmpadas.
Dali a pouco chegaram uns enfermeiros e me levaram para a gelada sala da tomografia computadorizada, onde a tal maca de plástico mostrou o seu valor, tornando muito fácil a minha retirada da maca onde eu estava para a esteira da máquina, da CT, que aliás é outra que eu decorei cada detalhe.
Depois da escaneada, fui colocado de volta na minha maca original, e levado de volta para a minha baia, onde desta vez pedi para que apagassem a lâmpada da minha cara.
Logo depois veio o Dr. Jorge me comunicando que eu tinha rachado o crânio e fraturado a 5ª (ou 6ª?) vertebra da coluna cervical, e que eu havia dado muita sorte, tanto no traumatismo craniano, quanto na fratura da coluna, esta última não ter rompido a medula, o que resultaria em não menos do que eu ficar tetraplágico.
Eu faria mais dois raios X para verificar o comportamento da minha coluna em posições diferentes, e conforme o resultado, seria liberado para ir para casa, com o levíssimo prejuízo de usar dois meses de colar cervical.
A sala de raios X era ainda mais gelada do que a da tomografia, ainda mais para meus trajes sumários de borda de piscina, que eram sunga molhada, camisa de flores… nem minhas havaianas legítimas eu levei.
Por conta da tremedeira causada pelo frio de lascar que fazia naquela sala eu tive que refazer uma das chapas, de tanto que eu tremia… pobre imbecil.
Depois de aguardar o resultado na minha baia-de-macas, que agora estava novamente com a luz acesíssima, recebi enfim a notícia de que além de ter quebrado a vertebra, ela teve o ligamento rompido.
Cirurgia.
E o pior é que ela só poderia acontecer quando tivessem a certeza de que o coágulo no cerebro parou mesmo de crescer.
Eu ficaria internado e no dia seguinte pela manhã faria outra tomografia da cabeça, que diria se eu ia poder fazer logo a cirurgia na coluna ou se teriam que furar meu crânio para a implementação de um dreno que retiaria o coágulo, no caso de este ter crescido além do registrado no primeiro exame.
Foi então com essas perspectivas lamentáveis que eu fui levado para minha suíte e transferido daquela maca de plástico desgraçada para a que seria a minha cama pela próxima semana… era a cama mais macia que já havia me deitado até então.
Ah, e é claro que com a perspectiva de ter que instalar o dreno na cabeça na manhã seguinte, nada de comida, nem água… isso por que eu não comia nada desde o café da manhã, e de líquido, as cervejas que eu havia bebido na mansão já tinham ido pelo emissário a muito tempo.
Dr. Jorge me disse que iriam me alimentar com soro de alguma coisa de glicose, que inibiria a minha sensação de fome e sede… mas antes disso recebi a visita da nutricionista do hospital, que para desespero da Roberta, me sabatinou sobre meus pratos preferidos: “Você come carne? massa? frango? pão? queijo? peixe? leite?” e eu ia respondendo “sim, sim, sim, sim, sim, adoro camembert, gorgonzola, patê, ostras, mariscos, lagostas, perdizes e rins de texugo”.
Vai torturar outro, porra!
Logo em seguida veio o competente e seríssimo enfermeiro Tadeu e espetou em mim a agulha que me supriria do tal do soro glicosado e de toda a sorte de remédios a base de morfina que aliviariam a minha dor dali para a frente.
Aquela noite a minha doce Roberta passaria comigo, naquele quarto gelado.
Não entendi por que as janelas não abriam, obrigando o quarto a ficar com o Ar ligado o tempo todo, por mais frio que estivesse o dia… mais tarde eu deduziria a resposta.
Boa noite.

Dias #2, #3 e #4: Me sentindo melhor a cada dia, e pior a cada noite
copador_dia1b.jpg
Eu despachando de meu leito


Eu e minha árvore de natal

Acordei na segunda-feira e fui direto para a sala gelada da tomografia, só que desta vez, esperto que sou, levei meu cobertor para manter uma temperatura confortável o pelo tempo que durasse a empreitada.
Desta vez os enfermeiros me tiravam do leito para a maca e da maca para a máquina, ida-e-volta, pelas pontas dos lençóis, e por conta dos meus 96kg de puro músculo, não faltaram trancos e chacoalhadas que para quem olhava de fora deviam mesmo parecer que não me causavam grande desconforto… e eu tentava dar uma de macho, mas tudo doía.
Eu estava que nem o Abracurcix no início do Escudo Arverno.
Fiz o exame, que deu tudo bem, ou seja, eu não precisaria ter o crânio perfurado pela furadeira dos caras e por conta disso tinha então o sinal verde para a cirurgia da coluna.
A cirurgia foi então marcada para quinta às 8 da manhã, e seria assim: O cirurgião acessaria a minha vertebra quebrada pela frente, através de incisão no meu pescoço, retiraria um pedaço do osso do bico da bacia para usar de enxerto, e aplicaria dois parafusos e uma plaquinha que iriam grudar a 5ª e a 6ª vertebras, uma na outra.
Até perguntei se havia a opção de eu não fazer a cirurgia, mas o Dr. Jorge me explicou que os ligamentos rompidos não se regenerariam, deixando solta a vértebra acidentada, e como eu ando de moto e jogo tênis, correria o risco de em um acidentezinho bobo (ou não tão bobo), deslocar aquela vértebra além da conta e aí sim, ter uma ruptura da medula, de modo que eu nem pensei duas vezes: É Cirurgia, só se for agora.
Voltei para o quarto bem aliviado por poder pular a parte da broca no coco, onde fui recebido com meu café da manhã: Café fraquinho, leite, biscoitinhos, iogurte, pãozinho, margarina, queijo minas, blanquet de peru e suquinho de alguma fruta que não me lembro qual foi, mas pra quem não comia a 24 horas, foi um verdadeiro banquete.
E me deu disposição para arriscar um banhozinho, que me deu mais disposição ainda, para ligar meu computador no Internet via modem do telefone do quarto, baixar uns e-mails (que demoraram décadas) e acabar de jogar no ar o post sobre meu vôo de DC-3, que já estava quase pronto.
Ao mesmo tempo que durante o dia eu ia me sentindo cada vez melhor, com mais disposição e autonomia, as doses excessivas de morfina que eu estava tomando estavam mostrando seus efeitos colaterais, que eram uma coceirada desgraçada, principalmente embaixo do colar cervical, que já estava bem sujinho, e enjôo.
Eu já não conseguia mais comer como nos primeiros dias, quando raspava o prato.
Agora, eu já achava a comida de lá uma bosta, não conseguia mais comer direito, vomitava o tempo todo…
Eu sentia muita dor de cabeça, por conta do traumatismo, acho, e também pela falta de sono, dor de cabeça esta que ignorava totalmente a morfina que era aplicada nas minhas veias.
Eu só ficava de barriga para cima, com a cabeça sempre apoiada no mesmo ponto, e isso estava me matando… minha cabeça estava já com uma espécie de santo-antônio em volta do ponto em que se apoiava.
Sem falar que o colar cervical estava me deixando com apinéia do sono, tipo, quando eu começava a dormir, relaxava, e quando relaxava, em questão de segundos minha goela, ou sei lá o que, fechava, e eu acordava em meio a uma roncada esquisitíssima.
Daí eu levantava o encosto da cama para tentar dormir sentado, aliviando a dor da parte de trás da cabeça, daí vinha a apnéia do sono, deitava o encosto da cama para próximo da horizontal para tentar outra posição de lado, talvez, mas enjova e rodava tudo, vinha a dor de cabeça pulsante, daí levantava de novo o encosto em um cíclo desesperador.
A hora da morfina, que no início era festejada por conta do alívio, agora era vista com medo de mais enjôos e dor de cabeça.
Durante a noite eu tinha um amigo: meu relógio.
Nunca consultei tanto meu relógio durante a noite… constatar a passada de 15 minutos era motivo de comemoração e esperança, pois apesar do sono monstruoso que eu sentia, torcia para amanhecer logo para eu ter outros estímulos, como luz, TV, pessoas, visitas, médicos, e poder esquecer essa história de ter que dormir, já que era impossível.
Pelo menos a tortura acabava.
Era uma merda, bicho.
Uma merda não conseguir dormir por estar com dor de cabeça, que ocorria justamente pela falta de sono.
Cheque mate de merda.

Dias #5, #6 e #7: Cirurgia, pós-operatório e beyond the infinite

Se eu soubesse o que me aguardava, faria o “D”, da derrota.

O Dr. Jorge, o Dr. Vinagre…

…e esse aí sou eu…

…e esse aí também… deixando de ser Anakin para começar a me transformar em Darth Vader.

Quinta-feira, 1/11/2007, 8h da manhã.
Dia da minha cirurgia.
Lá fui eu.
Cheguei na minha maca no centro cirurgico, que já estava naquele ambiente de oficina mecânica, com caixas de ferramentas para lá, tubos, mangueiras e seringas pra cá, painéis com luzes que piscam acolá… me botaram embaixo de uns refletores fortíssimos, conheci meu anestesista, o Dr. Vinagre… não sei por que, mas a primeira pessoa de quem eu quis ficar mais amiga era meu anestesista, que no final das contas foi a única pessoa que tratou comigo naquela sala (verbalmente, se me entendem).
Foi lá no meu braço esquerdo, deu uma avaliada na agulha que já estava espetada nele desde domingo, depois foi no meu braço direito, procurou a veia, que, segundo ele sempre se escondia naquela hora de cagaço… perguntei se eu sonharia, me respondeu que tem gente que sonha, tem gente que não sonha, e tal… perguntei se não havia o risco de eu acordar durante a cirurgia, enquanto estivesse com as tripas para fora, ele riu e disse que eu não precisava me preocupar com isso.
Agulhas nas veias, ele disse que eu ia começar a me sentir sonolento… e comecei mesmo, enquanto ele ia grudando eletrodos na minha testa… e a sonolência ia aumentando… e era uma sonolência de merda, uma sensação de não querer dormir de jeito nenhum, a minha vontade era de falar “olha, beleza, eu não quero mais não, falou? foi mal, mas…”, e quanto mais sono eu tinha mais vontade eu tinha de ficar acordado… me deu uma máscara de oxigênio para eu respirar, em que eu dei belas baforadas, esperando o efeito descrito por Tyler Durden em Clube da Luta… porra nenhuma… aquela espera de merda… e acabou que eu dormi, ou melhor, eu acordei.
Nada de sonhos, foi um piscar de olhos.
O relógio pulou de 8 para 12h.
Esquisito pra cacete.
Acordei ainda no centro cirurgico, e comecei a sentir as novidades.
Minha bacia doía no ossinho da extremidade da esquerda, de onde o Dr. Jorge havia retirado o lasco para fazer o enxerto, e do meu pescoço saía um tubinho que ia para debaixo da maca, onde havia um recipiente sanfonado, que pelo formato sugava os líquidos vermelhos que meu organismo produzia.
De volta ao quarto, o desconforto era enorme.
Não podia nem me mexer direito por conta dos talhos, um de cada lado da carcaça, aquele tubinho desgraçado saindo de dentro da minha garganta… deu vontade de mijar… pedi aquele bagulho de mijar deitado que esqueci o nome… fradinho, franguinha, uma porra dessas (é “pato”).
Levantei um pouco o encosto da cama e botei o pinto lá dentro… nada.
Eu sentia o mijo indo até a metade do caminho… agora vai… e voltava.
Não tive dúvida, chamei o enfermeiro para me botar uma sonda.
– Hahaha – pensei. – Depois do que eu já passei, sonda no pinto vai ser moleza.
E lá veio o eficiente Tadeu com seus equipamentos e disse “vai incomodar um pouquinho, mas depois compensa”… maluco, quando ele começou a enfiar aquele tubo na minha uretra, aquela sensação horrorosa de ter o pau empalado… cara, eu pensei, eu tô maluco, e disse “Olha só, esquece. Não precisa não, eu fico sem mijar mesmo”, e ele disse “agora aguenta, já está quase lá”.
Cara, que sensação mais escrota que é botar aquilo.
Mijei 900ml pela mangueirinha.
Depois que ele tirou aquele treco, pensei “Vou é ficar sem beber água pra não ter que mijar nunca mais”.
Mas que alívio que foi.
Depois veio a pior parte, que foram as primeiras horas de pós-operatório.
Eu sentia dor nos lugares costurados após a cirurgia, mas até aí tudo bem, o que pegava mesmo era a dor de cabeça.
Minha cabeça pulsava, latejava, meu cerebelo parecia que queria sair pelas orelhas.
Eu queria dormir mas não conseguia por que a goela travava no colar cervical, eu queria comer mas preferia a fome do que sequer olhar para aquela comida desgraçada daquele hospital asqueroso… fiquei assim durante a tarde inteira, contando os minutos para o dia seguinte, quando o Dr. Jorge viria retirar aquele dreno de merda que saia do meu pescoço.
Ele veio me ver e eu me queixava muito de dor de cabeça, o que fez com que ele solicitasse outra tomografia do crânio para ver se estava mesmo tudo em ordem.
De noite, parece que foi de sacanagem, mas eu estava tão cansado, tão no limite das forças, que o sono finalmente estava me vencendo… estava começando a cochilar enfim… que delícia, aquela sensação de o sono vindo e o corpo relaxando cada vez mais, cada vez mais… mas daí entrou logo um bando de enfermeiros no quarto para me tirar da cama para a maca e ir para a motherfucker tomografia computadorizada.
Lá fui eu acordadíssimo again, e é claro que meu cerebelo voltou pulsar desgraçadamente… parecia que tinham tirado o cerebro e botado o meu coração no lugar dele.
Fui lá, fiz a bosta do exame, não deu nada, voltei pro quarto, de volta pra minha cama macia, onde dois comprimidos de valium me aguardavam para me botar pra dormir de uma vez por todas e acabar com essa novela mexicana do cacete.
Not so easy, pois os valiums entraram e saíram em questão de segundos em uma sonora golfada.
Lá se vão meus valiums… e meu sono com eles.
Roberta teve a feliz idéia de ligar para o médico plantonista e contar a minha história triste, o que sensibilizou o pobre rapaz, que tratou de me arrumar um valium intra venoso, que este sim, me pôs para dormir como um anjinho… ou melhor, como um trator encalhado, segundo a descrição da Roberta.
Não dormi a noite inteira, mas quando acordei de madrugada, me sentia bem melhor… incrivelmente melhor, pois minha cabeça já não pulsava mais daquele jeito, o que me permitiu concluir que eu devia estar sem dormir já há alguns dias.
Fiquei curtindo a madrugada, em que não sentia tanta dor no quadril, nem no pescoço, nem na cabeça… não tinha mais sono, mas tudo bem.
Só faltavam umas duas horas para amanhecer e isso eu tiraria de letra… era só tomar cuidado para não esticar o tal do tubinho do dreno… o tempo passou, amanheceu… de vez em quando vinha alguma enfermeira injetar alguma coisa gelada na minha veia… é incrível como é possível se habituar a uma situação lamentável como esta e achar normal ficar uma semana com uma agulha de silicone injetando líquidos diversos na sua veia, que fariam a sua mão inchar, seu braço doer, a esquisita sensação de um líquido gelado ser misturado ao seu sangue… pedir peniquinho para mijar sentado, com a enfermeira te olhando… pedir para uma enfermeira que você nunca viu para te dar banho… tudo isso faz com que os valores de fora de lá sejam tão… babacas… tão fúteis…
De manhã veio o Dr. Jorge e tirou o dreno do meu pescoço.
Se aquilo eu me sentia muito mais livre de movimentos… eu sempre tinha a paranóia de que aquele recipiente sanfonado, cheio de líquidos vermelhos pudesse ser espremido, talvez por mim mesmo ao me sentar acidentalmente em cima dele e que todos aqueles resíduos gelados e vermelhos fossem injetados na pressão de volta para meu pescoço… ui, foi mesmo um alívio tirar aquele treco.
Sem o tubinho saindo do meu pescoço, eu conheci uma nova dimensão, a posição “de lado”.
Tomei coragem e reclinei totalmente a cama do hospital até a posição 100% horizontal… tudo girou, como era esperado, mas eu aguentei… e pasmem!
Virei de lado!
E dormi!
Como um anjinho.
Passei o resto da sexta-feira inteiro dormindo de lado.
Que luxo!
Só acordava de vez em quando para dar oi para as visitas que estavam por lá e pimba, dormia de novo.
Pensei “de noite, se estiver sem sono, peço um válium e durmo na moral”, e foi o que eu fiz, tomei um válium à meia-noite, e dormi até as 2h da manhã… depois fiquei um bom tempo acordado, na verdade eu já sabia que no dia seguinte era a minha alta, e aquilo me enchia de felicidade e tranqüilidade.
Ainda levantei sozinho, tirei a bomba do soro da tomada, que começou a apitar desesperadamente, e eu nem aí, arrastei aquela árvore de natal até a porta do banheiro, arriei as calças e dei uma bela mijada sentado, sozinho.
A enfermeira ainda entrou no quarto e me perguntou se estava tudo bem… desligou o apito do bagulho, sorriu para mim sentado na privada… eu pensei… normalmente eu sentiria vergonha de ter o banheiro invadido por uma mulher que eu nunca vi enquanto sentado na privada… vê se pode… que babaquice.
Amanheceu, estava assistindo “Operação Valquiria” no Telecine Cult, onde apareciam lindíssimas tomadas de um Junkers Ju 52, quando chegou meu médico o Dr. Jorge.
Me perguntou se estava tudo bem, se eu estava em condições de ir para casa… apesar de eu estar há dois dias sem comer nada, a minha vontade era de fazer 100 polichinelos e 50 flexões com cada braço, e é capaz de eu ter feito mesmo se disso dependesse a minha saída daquele templo da dor e agonia, do sofrimento e da miséria humana.
Olhei longamente pela janela do quarto, de onde se via o Bairro Peixoto e umas favelinhas, que do meu quarto, pareciam os lugares mais aprazíveis do Rio de Janeiro… foi quando ficou muito claro para mim o motivo de as janelas não abrirem.
As pessoas pulariam.
Mas pulariam mesmo.
Em massa.
Arrumei rapidamente as minhas coisas, me despedi dos meus carcereiros, isto é, enfermeiros, e pela primeira vez, caminhei pelos corredores do Copa d’Or.
Pela primeira vez tive a visão daquele elevador que tem um espectador na posição vertical.
Andei para o saguão do hospital, de onde se via já a rua.
A rua!
Eu ia andar pela calçada.
Meu pai me perguntou se eu me incomodaria em andar até o carro, que estava um pouco acima, eu disse que não, daí ele foi na frente e eu ia andando pela calçada com meus passinhos curtíssimos, beeeem devagarinho, fraco pra cacete, e pensando “eu iria a pé até em casa feliz”.
No carro, eu não queria chegar nunca, cheguei a pedir para meu pai não me levar para casa, para que ficasse passeando de carro comigo o dia inteiro, e eu curti cada momento daquela ida para casa.
Eu já passei por Botafogo milhares de vezes na vida, mas nunca tive aquele olhar sobre as coisas, sobre cada detalhe.
Era tudo lindo.
O trânsito, o chacoalhar do carro… cara, é indescritível… estou quase chorando aqui enquanto teclo só de me lembrar daqueles momentos tão simples e tão gloriosos.
Eu estava explodindo de felicidade.

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