
Estava eu montado na minha motoca, na pole position do sinal do posto Mengão, esperando que fique verde para seguir pela Borges de Medeiros na direção norte para pegar o Túnel Rebouças no caminho de casa, voltando do trabalho, nos tempos de MarktHaus, Gênesis da Puc.
Não pude deixar de reparar no Santana ao meu lado, todo empapagaiado, de farol azul, neon verde, interior de chão de ônibus, ronco de veneno, e na boléia um sujeito de cara de malvado, que me encarava e pisava ameaçadoramente no acelerador, produzindo um ronco sinistro nos 2000CC do seu motor AP.
– Vamos ver se esse carro alegórico anda mesmo – pensei, já observando o sinal dos pedestres piscando, anunciando que a brincadeira ia começar… “Rrrrooonnn, rrooonnn”, comecei eu acelerando minha motoca, chamando para briga, e o “Mad Max” ao meu lado respondia “RRRÁÁÁÁÁÁNNNNN, RRRÁÁÁÁÁÁNNNNN, RRRÁÁÁÁÁÁNNNNN…” – isso vai ser divertido – pensei, mas na verdade com a certeza de que ia comer uma poeira monstra.
Sinal verde.
Saí derramando gasolina nos meus dois carburadores Webber, roncando bonito e só esperando o neonzão me deixar para trás, o que não acontecia nunca… olhei no espelho… e o cara tinha deixado o motor morrer, e ficou parado no sinal com as kombis buzinando atrás… – que goiaba – pensei… alcancei os 70km/h regulamentares da via e seguia em MRU na reta do ex-Tivoli, quando ouvi um ruído enlouquecido de gasolina sendo queimada com violência, e marchas sendo trocadas com raiva, ruído que crescia rapidamente… recolhi para a direita com um certo cagaço, e fiquei esperando o malvado do santana perolado passar, o que não tardou acontecer… o cabra passou por mim como um bólido, deixando um cheiro de óleo queimado, e não parou de acelerar nem quando já ia longe… parecia mesmo que só me ultrapassar daquela forma não bastava, era necessário fazer o carro pagar pela vergonha de ter ficado parado no sinal na hora mais importante da noite.
Eu nem me lembrava do pardal que tem ali quase chegando no Piraquê, só me lembrei dele quando meu algoz foi lindamente fotografado, em um poderoso flash, que deve até ter acordado os cavalos no jóquei… como todos que passam pela desagradável situação de levar um flash desses pelo “derrière”, o zé mané deu uma inútil tirada de pé, no arco reflexo, aquela tiradinha de pé sinônima de “ai, menos quinheintinhos na conta”, e não perdeu a pose, enfiou o pé de novo e saiu enlouquecido, cantando pneu de quarta, do tipo “fodido, fodido e meio”, ou “o que é mais um peido pra quem já tá cagado?”… enquanto nesse interim o escroto polaco Mairus gargalhava em altos brados montado na sua humilde motocicleta rumo aos braços da sua amada…
Estava eu chegando no meu emprego de Paste-up na Gazeta Mercantil, no Teleporto, lá pelo ano de 1996 ou 97.
Como eu trabalhava no fechamento do jornal diário, meu horário era diferente, entrando às 13h e saindo às 21h, logo nunca pegava fila para os elevadores do prédio.
Entrei no saguão do Teleporto, na Cidade Nova, preparado para mais um dia de trabalho, chamei o elevador e esperei por breves segundos… din, dan, don, as portas se abriram e eu entrei no elevador vazio.
Levei uma fração de segundo para perceber que o lugar fedia muito, mas muito.
Algum passageiro que o havia usado antes de mim caprichou em uma flatulência de odor inignorável.
Antes de eu processar as possibilidades e tomar a decisão óbvia de abandonar aquele carro e esperar pelo próximo, as portas se fecharam e o elevador partiu rumo ao sexto andar, onde eu trabalhava, enquanto não me restava alternativa se não respirar aquele odor horroroso de gás de alho decomposto…
Mas o pior ainda estava por vir.
No mezanino do teleporto funciona o restaurante, que naquela hora tinha alta rotatividade de funcionários do local… não deu outra.
O elevador parou um andar acima, onde duas belas mocinhas entraram conversando e sorrindo em sua alegria juvenil… mas assim que entraram e a porta se fechou, os sorrisos desapareceram de seus semblantes foram substituidos por expressões de estranheza, de quase pavor… enquanto viravam-se para mim com um olhar de franca reprovação… quando elas adentraram o recinto eu já sabia tudo o que iria acontecer… tentei ficar imóvel na tentativa de que minha presença não fosse percebida, mas de nada mais adiantaria qualquer atitude que eu tomasse.
Em uma fração de segundo, enquanto eu era fuzilado pelo olhar de nojo pelas duas lindas jovens, me passou pela cabeça uma vontade desesperada de tentar explicar a situação, que eu nada tinha a ver com aquele triste cenário, mas aos poucos meu desespero foi sendo substituído pela resignação.
Nada do que eu tentasse fazer para desvincular a minha presença ali daquele horroroso odor que dominava o ambiente surtiria efeito.
Minha única reação foi um involuntário e envergonhado olhar de tristeza de como quem diz “desculpem-me, é que minha barriga anda péssima”.
Nem eu mais acreditava que eu não tinha cometido aquilo.
Quando eu desci no sexto andar já sentia a minha barriga revirando, como se todo o meu organismo já compartilhasse da opinião daquelas duas moças.
Com certeza, a partir daquele momento e para todo o sempre, eu tinha deixado de ser mais um desconhecido na multidão e passado a ser o nojento, o porcalhão, o desprezivel Peidão do Teleporto.
Cheque-mate.
Estávamos eu, Hans e Jakes bebendo umas cervejas no bar do Antônio, no Sumaré, em uma tarde de um fim de semana qualquer do final dos anos 80 ou início dos 90.
Enquanto Hans ou Jakes pagava a conta (eu nunca pagava a conta), eu aguardava sentado no capô da Panorama do Hans, o retorno do pagante, e reparava em umas três ou quatro criancinhas que subiam a escada que vinha da Favela Paula Ramos, e que brincavam animadamente com uma lata sem rótulo, que pelo tamanho parecia ser uma lata de Nescau, ou de leite Ninho, novinha e muito brilhante, que traziam com eles.
Meu coração se enchia de alegria ao ver como uma simples lata vazia podia divertir tanto aquelas pobres crianças.
Todas as brincadeiras deles envolviam a lata, eles chutavam a lata, jogavam a lata, batiam na lata, pulavam a lata, rolavam a lata pelo descampado onde estava também estacionado o carro do Hans.
Nisso voltam Hans e Jakes com a conta paga, entramos todos na Panorama, e Hans foi manobrar para fazer a volta e irmos embora dali.
Foi à frente, deu a ré para fazer a manobra, e como Hans sempre foi muito barbeiro, deu marcha a ré até muito além do que seria necessário para a sua realização, e em meio aos gritos das criancinhas de fora do carro, ouviu-se um ruído “SCROTCH”.
Era a lata das crianças.
Quando Hans arrancou com o carro, pude ver pelo vidro de trás um menininho desolado indo ver o que restou da sua lata, que estava achatada como uma panqueca… enquanto os outros procuravam pedras para atirar no nosso carro aos gritos de “filho da puta, filho da puta”.