Ontem desci para o centro com a missão de regularizar a contribuição com o INSS da nossa colaboradora Penha.
Para isso levei um boleto que apesar de ser referente aos meses 12 e 13/2007, já estava vencido, pois como foi gerado em novembro, o inteligente sistema do ministério da previdência social não poderia me dar o vencimento na data em que ele efetivamente vence, que é o dia 15/1/2008, não me perguntem por que, mas sei que os bancos não aceitavam recebe-lo… eu achava que era por estar vencido, mas depois descobriria que não.
Cheguei no posto da Previdência Social ao lado da Biblioteca Nacional, onde fui atendido direto, sem passar por fila nenhuma, e o rapaz me disse após uma breve olhada que o boleto estava mesmo vencido pois no campo “competência” o mês que constava era o de 9/2007.
Eu expliquei para ele que aquilo devia estar errado, pois eu só havia assinado a carteira da Penha no final de novembro, e que a competência certa era a que estava escrita no rodapé do boleto “Competencias consolidadas nesta GPS: 12/2007, 13/2007″.
O atendente entendeu e foi no computador e gerou outro boleto para mim, que apesar de bem “fraquinho”, dava para ler direito o valor e o banco iria receber sem problemas, segundo ele.

Fui no banco, depois de esperar umas 30 pessoas na minha frente, fui atendido e o caixa falou que o sistema não estava aceitando por causa da competência de 10/2007, que tinha que ter uma multa, que eu voltasse no INSS e pedisse para colocarem a multa que estava faltando.
O mesmo cabra no INSS me mostrou o vencimento do boleto dia 31/12 e me falou que estava certo, que não tinha multa, e que ele teria de aceitar.
De novo no banco, o caixa tentou e falou novamente que o sistema não aceitava, que não podia fazer nada.
Eu falei pra ele fazer como antigamente, recebe o dinheiro e me dá um recibo, e ele falou que não se trabalha mais assim.
Saí de lá já bastante puto da vida.
De volta ao posto da Previdência Social, falei para o sujeito, que já aparentava estar perdendo a paciência, isso mesmo, o cara do guichê estava perdendo a paciência comigo, que não estava rolando no banco real, e ele me disse que o problema é com os sistemas de bancos não-federais, que não estavam reconhecendo o bagulho, me mandou ir na casa lotérica no outro lado da rua.
Passei na casa lotérica, mostrei o boleto para a moça da tabacaria de dentro da casa lotérica e ela me disse – claro que paga aqui.
Lá fui eu, mas não sem antes retirar o dinheiro no caixa eletrônico, pois não poderia pagar com meu cartão da merda do Banco Real na casa lotérica.
Na casa lotérica.
Fila, demora, calor.
Quando chegou a minha vez a moça do guichê falou – não tá aceitando sem a multa – e eu mostrei o vencimento e a competência no rodapé do boleto, e ela perguntou se não é mês 10, que mês que eu boto então?”, eu falei – bota 12 – já sem nenhuma esperança de pagar o treco ali com aquela imbecil.
Ela rasurou o mês do “vencimento fake” do meu boleto de 10 para 12, não sei pra que ela fez isso, deve ser para a sua memória de peixe não esquecer e não ter que me perguntar denovo, ou sei lá por que, mas provocou a indignação de todos os distintíssimos balconistas da Previdência que me atenderam depois dali.
Saí de lá, comprei um Marlboro e um isqueiro e fumei um cigarro a profundas tragadas enquanto desejava a extinção dos ursos panda.
Voltei para meu balcão do INSS favorito e o negão não agüentava mais olhar para a minha cara.
– Na casa lotérica também não rolou – falei, ao que ele do alto do seu pedestal de funcionário público concursado me disse em tom solene – Então não posso fazer mais nada. – sério, a essa altura do campeonato o filho da puta me disse isso, e eu, já me sentindo o próprio Joseph K, perguntei – O que eu faço então? Demito minha empregada? – e ele, em um resquício de paciência, me disse – Vai na central da Previdência Social, na Rua Almirante Barroso, 54 – fui.
Entrei, peguei minha senha e me sentei.
Esperei 40 minutos e fui chamado para ir a um dos poucos guichês que tinha alguém atrás do acrílico.
A mulher que me atendeu tinha poeira nas rugas, como a esposa do vizinho do Winston Smith em 1984.
Enquanto eu esperava para ser chamado reparei que ela ajustou as configurações de brilho e contraste do monitor durante uns 5 minutos… ela teclava com os dois indicadores, pausadamente, fazendo careta para a tela e movendo os lábios enquanto teclava…
Eu entreguei a ela os papéis e comecei a contar a minha história triste, quando ela me interrompeu – Pode deixar que eu estou vendo tudo aqui no boleto – mas eu não parei de falar, minha paciência já tinha ido para a casa do caralho há muito tempo, e fui dizendo que nenhum banco aceitava o boleto, nem casa lotérica, que tinha ido já três vezes em outro posto do INSS, quando ela disse o que eu mais temia que ela dissesse – Não tem nada de errado com o boleto, o banco tem que aceitar. – e continuou – Quem te deu esse boleto? – o cara lá do outro posto do INSS de onde eu acabei de sair – foi quando ela, em uma absoluta ausência de misericórdia, me disse – Então você tem que ir lá e dizer isso para ele – a minha vontade era de esmurrar aquela mulher até que o cerebro dela estivesse espalhado pelo chão daquele lugar nojento, e me senti como o Alex em Laranja Mecânica, sendo pisado e sendo obrigado a lamber a sola do sapato que o pisava.
Quando eu vi na parede aquele cartaz dizendo “É proibido xingar os atendentes ou alveja-los com objetos de qualquer natureza”, eu entendi tudo.
– Não é possível que você esteja me mandando de volta para aquele cara. Esta é a quarta vez nesta tarde que eu vou a um posto do INSS para tentar resolver isso, já fui a dois bancos e a uma casa lotérica e eu não vou mais a lugar nenhum, eu vou sair daqui com isso resolvido. Este boleto não funciona, ninguém aceita isso, isso está errrado, por favor, me dê um boleto certo para eu levar no banco e pagar o INSS da minha empregada (porra)! – e ela, autoridade máxima de porra nenhuma do alto do seu crachá de merda e das suas rugas empoeiradas me respondeu indignada – Eu não tenho que ficar aguentando ninguém gritando comigo enquanto estou fazendo meu trabalho, blablabla, blablabla… – eu pedi desculpas por ter me exaltado, disse que o problema não era com ela, mas que já tinha perdido metade do meu dia por causa daquilo, tal, tal e tal… ela não satisfeita resolveu insinuar que a situação da minha empregada estava errada, pediu a carteira de trabalho dela – Ah, como não tem a carteira de trabalho dela? Como vou saber quando foi que assinou a carteira? Nunca pagou nenhum boleto? – era a autoridade do crachá.
Afinal quem sou eu para levantar a voz para uma funcionária pública concursada indemitível e totalmente acomodada em um trabalho brochante onde não faz diferença nenhuma se você trabalha ou não?
Ela foi lá para o único outro guichê ocupado e ficou conversando com o cara de trás do acrílico por um tempo, daqui a pouco veio ela com o meu boleto, que curiosamente agora tinha outro valor mais barato que o anterior.

Eu perguntei – Não dá pra botar aqui nesse campo que a competência é de 12/2007? Por que é isso que está confundindo os sistemas de pagamento – e ela me explicou que aquele “10/2007″, apesar de estar no campo “Competência”, não era a competência, mas sim um número que o sistema gerava… realmente o sistema deles não está preparado para competência.
Eu perguntei – E se o boleto for recusado denovo? – e ela, tardiamente – daí eu não posso fazer mais nada – eu tinha certeza absoluta de que o próximo banco não iria aceitar o boleto, e perguntei derradeiramente – E se não aceitarem? – ela – chame o gerente e diga que o Ministério do Trabalho os obriga a aceitarem. Um caixa de banco que não aceita um boleto do Ministério do Trabalho é burro. – Eu ri… para não chorar, mas não podia mais ficar ali, pois já eram 15h55, eu tinha que ir ao banco para pagar (doce ilusão) o meu boleto do (em voz grave e pausada) Ministério do Trabalho.
Entrei no Banco Real as 16h em ponto, fui o último a passar na “porta-barra-negros”.
Peguei a senha 47 e o placar marcava 996.
O cara que chegou na minha frente, que consequentemente pegou a senha 46, ganhou uma senha de dois caras que estavam saindo e que queriam “fazer uma boa ação”… graças a eles o sujeito pode furar a fila e fazer com que outras pessoas que estavam lá esperando por horas pudessem esperar um pouco mais… normalmente eu ficaria muito indignado com uma atitude dessas, mas eu nem liguei… eu já estava totalmente desesperançoso… sem brilho… amorfo… derrotado.
Enquanto esperava eu olhava um cartaz na parede que mostrava um diagrama com setas, parênteses, e palavras como “Cliente”, “Desenvolvimento Sustentável”, “Satisfação total”, “Consciência da puta que o pariu” e outras babaquices totalmente sem sentido… eu imaginava como eles devem ter dado boas risadas quando criaram essa merda que não quer dizer nada, e que ao mesmo tempo cumpre bem a sua função de fazer com que os clientes, apesar de não entender nada, achem que aquilo faz algum sentido para alguém que entenda aquela linguagem…
Apenas esperando o maldito boleto ser recusado mais uma vez, e depois disso eu não poderia mais voltar ao INSS, cujo expediente termina as 16h, como os bancos.
E chegou a minha vez.
Mostrei o boleto para a mocinha do caixa.
“Não” foi a resposta.
– Gerente – eu disse.
Ela – Não vai adiantar nada, por qu… – eu interrompi – Gerente – eu não esboçava mais nenhuma emoção nas palavras.
Ela foi chamar o gerente, enquanto eu esperava pelo gerente me disse que já ia fechando o caixa dela, dando a entender que nada mais ia ser pago ali.
Chegou o inutil do gerente, e foi quando eu usei o resto da energia que eu estava guardando depois de 4 horas e meia, sem ter almoçado, com meu colar cervical totalmente empapado, com a cicatriz da minha bacia doendo de tanto andar inutilmente de uma lado para outro naquele centro da cidade idiota.
– Boa tarde, eu quero pagar este boleto.
– Impossível, o sistema não aceita. Pede o valor da multa.
– Mas o boleto não está vencido, olhe só. Não tem multa a ser paga. E a competência não é esta que está no campo “Competência”, mas esta que está aqui no rodapé, a moça lá do INSS me explicou que esse 10/2007 que está escrito aí no campo “Competência” é um número idiota que o sistema idiota deles gera aleatoriamente. – minha paciência não existia mais.
– Você tem que ir no INSS e dizer que o boleto está errado.
– Foi o que eu fiz hoje a tarde inteira. Liga então você para a Previdência e resolva isso. O banco real não tem convênio com a Previdência?
– Nós não ligamos para ninguém. Aqui nós só recebemos pagamentos da Previdência. – secamente disse o merda do gerente.
– Que ótimo então, pois é justamente o que eu quero fazer. Aqui está o boleto. Eu vou deixar o dinheiro aqui e se você quiser me escreva em um guardanapo que eu paguei, mas se não quiser também tudo bem.
O babaca do gerente não tinha mais boa vontade alguma… na verdade ele nunca teve – Você tem que contratar um contador.
– EU PRECISO DE UM CONTADOR PARA PAGAR UM BOLETO? LIGA PARA O INSS E RESOLVA O MEU PROBLEMA. ESTÁ NA CARA QUE O PROBLEMA É NA CONVERSA DO SEU SISTEMA COM O DELES. EU NÃO POSSO FAZER MAIS NADA. O VALOR A SER PAGO ESTÁ AQUI, O VENCIMENTO ESTÁ AQUI E O DINHEIRO ESTÁ AQUI. O MINISTÉRIO DO TRABALHO DISSE QUE VOCÊS TEM OBRIGAÇÃO DE ACEITAR ESTE DOCUMENTO, E A MOÇA DO INSS DISSE QUE TODO O CAIXA QUE RECUSAR ESTE BOLETO É BURRO.
A essa altura já tinham alguns seguranças atrás de mim, e ainda bem que estou me recuperando da cirurgia, de colar cervical e tal, por que se eu estivesse o.k. talvez estivesse agora na cadeia, sem sacanagem nenhuma.
Sai de lá, fui no Gaúcho, bebi três chopes e três empadas, dei uma mijada e entrei no 206, mas apesar de eu estar vendo o ônibus na minha frente, prontinho para sair, eu tinha certeza que alguma coisa iria acontecer e que mais aquilo também não ia dar certo naquela tarde idiota.
Da janela do ônibus eu olhava o meu querido centro da cidade sem nenhuma emoção, como se estivesse vendo um filme velho, desbotado e mofado.
E Joseph K voltou para casa derrotado.
Depois de acordar sem água na semana inteira, hoje tomei banho de chuveiro pela manhã, me sentindo um verdadeiro rei.
A alegria durou pouco, pois agora já não tem mais água de novo, mas deu para sentir o gostinho da civilização.
Viver sem água na torneira é uma merda… a gente faz tudo para se adaptar, mas a coisa influencia diretamente na nossa rotina, mandando o nosso humor e a nossa empolgação para fazer as coisas pra casa do cacete.
Ontem tinha uma moça daqui no condomínio me dando esporro por que eu estou estocando água dentro de casa.
Eu também acho uma falta de espírito comunitário, por que acaba-se desperdiçando ainda mais, mas que fazer?
Estou com uma nenem de 2,5 meses que precisa tomar banho e de mamadeiras limpas… fora eu, que sem água, não tomo banho, sem banho, não durmo direito, sem dormir, não trabalho direito, se não trabalhar, fodeu tudo.
Na primeira vez que faltou água, quando ela voltou, não estoquei, pensando “foi só desta vez, agora normaliza, e se todo mundo resolver estocar, a água vai acabar mais depressa e é justamente o que não queremos.”, no dia seguinte a água acabou de novo e e não tinha uma gota nem para escovar os dentes.
Tive que ir na base do listerine nos bombeiros com meus galões para enche-los de água para trazer pra casa.
20 litros de água em cada mão… aquilo pesa pra caramba… e não dá pra nada.
Abaixo algumas fotos que, espero que em breve façam parte do passado (fiquem tranqüilos, as do banheiro a Roberta não me deixou publicar).




Todo mundo sem água
Meu apartamento está sem água.
A Cedae cortou.
O condomínio estava comprando carros-pipa para manter provisoriamente o fornecimento, mas a Cedae está impedindo, as empresas de realizarem este serviço.
O caso é que o síndico da gestão anterior deixou por 36 meses de pagar a conta d’água do nosso condomínio, que tem 136 apartamentos.
A dívida cobrada pelo monopólio estatal que fornece a água (Cedae) é de R$ 500.000,00, mas este valor é considerado alto demais pela gestão atual, e está sendo negociado pelo condomínio junto a Cedae.
Não tenho conhecimento de causa para afirmar se é ou não justo o corte do fornecimento da água do meu condomínio durante a negociação do valor da dívida, apenas posso dizer do alto da minha ignorância, que a atitude não me parece coerente, pois se o condomínio está negociando a dívida, é por que tem a intenção de paga-la.
Mas tudo bem, digamos que a lei dê a Cedae o direito de cortar o nosso fornecimento de água no meio do referido trâmite, ainda assim não é possível que exista uma lei que dê a Cedae o direito de proibir que empresas de carros-pipa venham nos entregar água “no varejo”, negócio que para nós é péssimo, pois a água de carros-pipa é muito mais cara do que a água encanada da Cedae, mas é no momento a nossa única alternativa de manter a água saindo das nossas torneiras.
Isso é seqüestro da nossa dignidade, da salubridade dos nossos lares.
São 136 famílias.
A Cedae não pode ter esse direito.
É como ser proibido de comprar pilhas por não pagar a conta de luz.
É o fim do mundo.
Espero que a justiça seja feita e nós possamos voltar a ter o direito de ter água nas nossas torneiras, de pagar a nossa dívida felizes e de lavar sossegados a roupa suja do nosso condomínio, em todos os sentidos.
Obrigado pela atenção.